Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
batatas fritas

 

a poesia já

não é flagrante na pele amarga dos violinos, irmão


durante o dia não há música, todos cultivam pequenas hortas

de estupidez de subsistência;

saciados, saem de casa à noite para desferir coices nas estrelas,

passeiam as longas caudas quadrúpedes ornamentadas

de lantejoulas e milagres a condizer.

fingem voar


o cancro das minhas palavras, irmão, já

não pede cirurgia.

incontáveis brutais metástases de silêncios díspares disseminaram-se

cristalizadas até aos tecidos mais longínquos, que nunca vi

mas sonhava visitar um dia, após

a pena capital que cumpre quem vive de coração aberto


a poesia já

não é o músculo grosso que nos tinha a combater fora-de-horas,

sangrar como corpo, irmão.

lembras-te?, a loucura arregaçada até aos ombros

tatuados de luz, a voz em bala...

já nenhum coração quer ouvir estórias antes de adormorrer


as colinas que amávamos dissiparam-se e deram lugar a vizinhos,

novos vizinhos, velhos vizinhos,

usam roupas de marcas não-visíveis à inteligência desarmada.

aos domingos inventam lixo, nos outros dias inventam domingos.

lançam fogo-posto aos ideais carnudos, aos versos suculentos, picam

a poesia num gueto de pimentas importadas


se voltarmos à guerra maldita pede a deus por mim

com batatas fritas e ketchup

 



poema poesia poeta ou coiso: Renato Filipe Cardoso às 16:07
atalho: | Chiu! | Nem penses! (2) | Queres mesmo?
|

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
escafandro

 

Estás de pé, simplesmente de pé, a fingir que dista pouco

a próxima vida. Podias ser

uma árvore

a sonhar sobre nós circulares que é possível crescer

para além do dilúvio, mas

em vez disso preferes quedar-te a fingir

que já falta pouco.

E enquanto isso unes os pontos da sua ausência.

E enquanto isso recortas a vida pelo picotado.

E enquanto isso escavas e revolves meticulosamente a raiz de tudo que

não brotou

não floresceu

não cresceu

definhou

morreu.

 

No dealbar das chuvas

a arqueologia do amor é a única ciência possível.

 



poema poesia poeta ou coiso: Renato Filipe Cardoso às 12:26
atalho: | Chiu! | Nem penses! (1) | Queres mesmo?
|

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Neverest


antes da noite seremos por um fio,

disseste,

e um espelho no teu sexo inventou contraluz.

fui tear no frio

o tecer do fogo-posto que reluz

: urdi um amor espesso que se veste

no mais rompante arrepio,

mas o crepúsculo ou a gangrena ou a peste

substantivos maiúsculos do leste

sobrevieram ao outro a que me opus


nada permanece o tanto que me deste,

mas não é a um fio que se reduz

 



poema poesia poeta ou coiso: Renato Filipe Cardoso às 04:06
atalho: | Chiu! | Queres mesmo?
|

Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
lista de compras

 

pergunta-me o que faço com as mãos embaraçadas

no sal vagaroso do metro

viajando no sentido contrário ao da marcha cardíaca


pergunta-me como é possível dividir a meio um beijo,

precisamente a meio, entre

cereais com pedaços de amor e banalidade fitness


pergunta-me onde nascem as ruas em que me encontro, antes

pergunta-me se me encontro;

indica o caminho mais curto para o arrepio mais longo


anota num improviso de papel as coisas que precisas de mim.

descreve o supérfluo e o imprescindível

e não esqueças:

guardo os parcos trocos no meu olho amarfanhado

onde a tinta está quase a desaparecer


pergunta-me quanto tempo passou e qual o prazo de validade

dos minutos que guardámos;

pergunta-me se conservo a factura para eventual devolução


pergunta-me o que vejo no frenesi de prateleiras em redor,

se há produtos com a tua marca

que mantenham a saliva fresca da primeira necessidade


dá-me a lista de compras. mas, sabes, quando já se tem

tão pouco para gastar

procuramos o amor embalado nos artigos de linha branca


percorro uma vez e outra e outra os corredores de um mercado

onde não caibo, qualquer que seja o prefixo,

e saio sem pagar.

ergo a chuva para molhar o chapéu.

quando era novo tinha a cabeça nas nuvens

 



poema poesia poeta ou coiso: Renato Filipe Cardoso às 11:32
atalho: | Chiu! | Queres mesmo?
|

Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Piolho

 

A menina sabe que pisca os olhos em tiquetaque obsceno.

Bem o sabe. E quer. Não por esgar de elementar pornografia,

tão-pouco por convidar intermitentemente à euforia,

mas porque extingue o mundo no seu olhar pequeno

e consome no jugo das pálpebras a obstipação do dia;

enquanto eu, apenasmente um entupido rapaz

a escrevinhar o mar impossível mergulhando na cidade

numa esconsa mesa de café,

sou incapaz

de libertar na tinta a onda terrífica que me invade

e perco o pé

e insisto em ideias que encontram ricochete na miopia...

Menina, tantos livros que traz...

Vejo que lê os filósofos... veio em busca da verdade?

Partidária da fé ou das conservas em vácuo da universidade?

Não tarde, diga lá quem é...

alguma vez lhe tingiram de amoras o rodapé?

Como ama, como se chama, como se inflama a sua idade?

Costuma ir ao estádio ver chutar a liberdade?

Aproveita as horas vagas para vaguear no salão da dança?

Não acredita na política, que os políticos só enchem a pança?

Tem uma avó paralítica com verrugas na herança?

Decorou Cervantes na quixotesca fase de criança?

Ah!, que saudades da maternal redoma adornada de faiança

e aos domingos o porco, a providência, a missa, a matança.

Menina, afaste-se da esperança!

(acaba de entrar na urbana limitação com esplanada para o infinito),

e abafe o seu grito

que não lhe adianta gritar.

Respire fundo, outra vez, e outra, aproveite para respirar.

Aqui cada um vive aflito

sonhando que respira, imaginando o próprio ar

como se o ar não fosse um mito.

Eu transpiro essa aflição em cada poro, bem admito.

Mas este café é em todos os hemisférios o único onde o mundo ainda brilha,

se quiser pode chamar-lhe a ilha

onde atracam erráticos navios à beira de sufocar.

E por falar em boca, o seu olhar,

que de pestanejar bruxuleante como quem beija

pode bem beijar como quem pestaneja.

Seja como seja, afigura-se-me obsceno esse seu viço

e por isso

eis que me atrevo a confessar como é pleno o feitiço,

o quanto desejo voltar a sua página enquanto lê ou estuda

e portanto não me importa que leia, releia e permaneça muda.

Basta-me o seu piscar castiço

a maneira omnisciente e poderosa de obliterar o mundo inteiro

com o seu piscar incessante de miúda,

esse olhar sobranceiro

de quem decide construir uma viela ou implodir uma praça;

de quem abrindo e fechando um singelo olho,

com intangível graça,

pode decidir no calendário a próxima desgraça;

de quem encerra lenta e profundamente a luz como uma ameaça

que o tempo presente não despedaça;

de quem faça e desfaça.

A menina pisca obscenamente e apresenta-se assaz bela

mas não se iluda com a fugaz tela:

pode esmagar com a unha o piolho

inconsciente que embate e insiste contra a vidraça

ou abrir a janela

e lançar a sorte à vida que foi e não passa.

 



poema poesia poeta ou coiso: Renato Filipe Cardoso às 02:28
atalho: | Chiu! | Nem penses! (1) | Queres mesmo?
|

"Wasted" - Angus and Julia Stone
"Revenge" - Danger Mouse & Sparklehorse (The Flaming Lips cover)
"Apple Pie" - The Bastard Fairies
Postes de alta tensão.

batatas fritas

escafandro

Neverest

lista de compras

Piolho

penso higiénico

rescaldo

natureza morta

anti-ácido

poema-dental

Sem tir

vida animal

protector solar

meia-dúzia

[dizem por aí]

Chilreal

armistício

[amar]

voasse

consumir de preferência a...

Aresquivo borimundo.
"Dogs" - Troy Von Balthazar
Novembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


"Beautifulheart" - Richard Swift
Mim próprio.
"A Sucker For Your Sound" - I Monster
"Long Red Hair" - Vermillion Lies
Visitações:
"Your Name Is" - Malcolm Scarpa
blogs SAPO