a poesia já
não é flagrante na pele amarga dos violinos, irmão
durante o dia não há música, todos cultivam pequenas hortas
de estupidez de subsistência;
saciados, saem de casa à noite para desferir coices nas estrelas,
passeiam as longas caudas quadrúpedes ornamentadas
de lantejoulas e milagres a condizer.
fingem voar
o cancro das minhas palavras, irmão, já
não pede cirurgia.
incontáveis brutais metástases de silêncios díspares disseminaram-se
cristalizadas até aos tecidos mais longínquos, que nunca vi
mas sonhava visitar um dia, após
a pena capital que cumpre quem vive de coração aberto
a poesia já
não é o músculo grosso que nos tinha a combater fora-de-horas,
sangrar como corpo, irmão.
lembras-te?, a loucura arregaçada até aos ombros
tatuados de luz, a voz em bala...
já nenhum coração quer ouvir estórias antes de adormorrer
as colinas que amávamos dissiparam-se e deram lugar a vizinhos,
novos vizinhos, velhos vizinhos,
usam roupas de marcas não-visíveis à inteligência desarmada.
aos domingos inventam lixo, nos outros dias inventam domingos.
lançam fogo-posto aos ideais carnudos, aos versos suculentos, picam
a poesia num gueto de pimentas importadas
se voltarmos à guerra maldita pede a deus por mim
com batatas fritas e ketchup
Estás de pé, simplesmente de pé, a fingir que dista pouco
a próxima vida. Podias ser
uma árvore
a sonhar sobre nós circulares que é possível crescer
para além do dilúvio, mas
em vez disso preferes quedar-te a fingir
que já falta pouco.
E enquanto isso unes os pontos da sua ausência.
E enquanto isso recortas a vida pelo picotado.
E enquanto isso escavas e revolves meticulosamente a raiz de tudo que
não brotou
não floresceu
não cresceu
definhou
morreu.
No dealbar das chuvas
a arqueologia do amor é a única ciência possível.
antes da noite seremos por um fio,
disseste,
e um espelho no teu sexo inventou contraluz.
fui tear no frio
o tecer do fogo-posto que reluz
: urdi um amor espesso que se veste
no mais rompante arrepio,
mas o crepúsculo ou a gangrena ou a peste
substantivos maiúsculos do leste
sobrevieram ao outro a que me opus
nada permanece o tanto que me deste,
mas não é a um fio que se reduz
pergunta-me o que faço com as mãos embaraçadas
no sal vagaroso do metro
viajando no sentido contrário ao da marcha cardíaca
pergunta-me como é possível dividir a meio um beijo,
precisamente a meio, entre
cereais com pedaços de amor e banalidade fitness
pergunta-me onde nascem as ruas em que me encontro, antes
pergunta-me se me encontro;
indica o caminho mais curto para o arrepio mais longo
anota num improviso de papel as coisas que precisas de mim.
descreve o supérfluo e o imprescindível
e não esqueças:
guardo os parcos trocos no meu olho amarfanhado
onde a tinta está quase a desaparecer
pergunta-me quanto tempo passou e qual o prazo de validade
dos minutos que guardámos;
pergunta-me se conservo a factura para eventual devolução
pergunta-me o que vejo no frenesi de prateleiras em redor,
se há produtos com a tua marca
que mantenham a saliva fresca da primeira necessidade
dá-me a lista de compras. mas, sabes, quando já se tem
tão pouco para gastar
procuramos o amor embalado nos artigos de linha branca
percorro uma vez e outra e outra os corredores de um mercado
onde não caibo, qualquer que seja o prefixo,
e saio sem pagar.
ergo a chuva para molhar o chapéu.
quando era novo tinha a cabeça nas nuvens
A menina sabe que pisca os olhos em tiquetaque obsceno.
Bem o sabe. E quer. Não por esgar de elementar pornografia,
tão-pouco por convidar intermitentemente à euforia,
mas porque extingue o mundo no seu olhar pequeno
e consome no jugo das pálpebras a obstipação do dia;
enquanto eu, apenasmente um entupido rapaz
a escrevinhar o mar impossível mergulhando na cidade
numa esconsa mesa de café,
sou incapaz
de libertar na tinta a onda terrífica que me invade
e perco o pé
e insisto em ideias que encontram ricochete na miopia...
Menina, tantos livros que traz...
Vejo que lê os filósofos... veio em busca da verdade?
Partidária da fé ou das conservas em vácuo da universidade?
Não tarde, diga lá quem é...
alguma vez lhe tingiram de amoras o rodapé?
Como ama, como se chama, como se inflama a sua idade?
Costuma ir ao estádio ver chutar a liberdade?
Aproveita as horas vagas para vaguear no salão da dança?
Não acredita na política, que os políticos só enchem a pança?
Tem uma avó paralítica com verrugas na herança?
Decorou Cervantes na quixotesca fase de criança?
Ah!, que saudades da maternal redoma adornada de faiança
e aos domingos o porco, a providência, a missa, a matança.
Menina, afaste-se da esperança!
(acaba de entrar na urbana limitação com esplanada para o infinito),
e abafe o seu grito
que não lhe adianta gritar.
Respire fundo, outra vez, e outra, aproveite para respirar.
Aqui cada um vive aflito
sonhando que respira, imaginando o próprio ar
como se o ar não fosse um mito.
Eu transpiro essa aflição em cada poro, bem admito.
Mas este café é em todos os hemisférios o único onde o mundo ainda brilha,
se quiser pode chamar-lhe a ilha
onde atracam erráticos navios à beira de sufocar.
E por falar em boca, o seu olhar,
que de pestanejar bruxuleante como quem beija
pode bem beijar como quem pestaneja.
Seja como seja, afigura-se-me obsceno esse seu viço
e por isso
eis que me atrevo a confessar como é pleno o feitiço,
o quanto desejo voltar a sua página enquanto lê ou estuda
e portanto não me importa que leia, releia e permaneça muda.
Basta-me o seu piscar castiço
a maneira omnisciente e poderosa de obliterar o mundo inteiro
com o seu piscar incessante de miúda,
esse olhar sobranceiro
de quem decide construir uma viela ou implodir uma praça;
de quem abrindo e fechando um singelo olho,
com intangível graça,
pode decidir no calendário a próxima desgraça;
de quem encerra lenta e profundamente a luz como uma ameaça
que o tempo presente não despedaça;
de quem faça e desfaça.
A menina pisca obscenamente e apresenta-se assaz bela
mas não se iluda com a fugaz tela:
pode esmagar com a unha o piolho
inconsciente que embate e insiste contra a vidraça
ou abrir a janela
e lançar a sorte à vida que foi e não passa.
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